Quem tem pé tem unha encravada

Ilustração: Daniel Lourenço
O cotidiano é muito massacrante. Disso ninguém duvida e o que mais fazemos é tentar driblar essa máxima com humor e criatividade. Mas sinto que a velocidade da informação, a multiplicidade das coisas, o poder assessar a internet e fazer tudo o que se quer a qualquer momento, o celular na mão e o mundo à disposição a qualquer hora fez crescer ainda mais o nosso grau de autoexigência. Nos tornamos, dia após dia, exímios malabaristas dos afazeres cotidianos, espremendo daqui, empurrando de lá e encaixando mais uma coisinha que precisa ser feita na agenda da semana.
Como se não bastasse as que são exigidas pelo trabalho, inventamos outras mais, uma receita de bem viver que seja, uma ioga ou massagem, mesmo que nos estressemos um pouco mais para combater o estresse. É mesmo um mundo de muitas possibilidades e não nos contentamos em não aproveitá-las. Tantos sites pra entrar, e-mails pra mandar, telefonemas pra dar, coisas pra comprar. No caso das mães, então, isso se multiplica numa velocidade assustadora.
Se a síndrome da Mulher Maravilha já costumava acompanhar muitas de nós na tentativa de cumprir nossas atribuladas agendas, com o cinto de mil e uma utilidades oferecido pela internet e a diversidade do mundo atual realmente fica difícil acabar um dia sequer sem a frustração de não termos feito tudo que planejávamos fazer ou, pelo menos, que achávamos que precisávamos ter feito, que parecia que não poderíamos mais viver sem fazer. Ledo engano. O cotidiano é mesmo muito massacrante porque, quando descuidamos um pouquinho, já entramos na roda-viva que fatalmente resulta em ansiedade e estresse no fim da tarde.
Pois dia desses, caí no ciclone e cheguei em casa chutando cadeira. Uma reforma em casa, os meninos brigando, notas baixas na escola, tratos não cumpridos e a mamãe aqui estourou bonito. “Por que você tá tão irritada?” Enumerei minhas razões, nervosa. Depois do sermão, cada um no seu quarto e eu no banheiro enxugando as lágrimas. Passa um tempo, tudo mais calmo, me chega o pequeno Pedro com uma folha de papel. O exímio desenhista que é meu filho tinha feito uma tira de quadrinhos, onde retratava um homem acordando com o despertador às cinco da manhã, vestindo seu paletó, andando como um sonâmbulo até o ponto do ônibus, viajando em pé e chegando no trabalho sem nenhuma vontade. Ao lado, escreveu: “Você já pensou em quem tem uma vida assim? Ele é que devia estar irritado. Eu te amo”. Meu filho de 11 anos veio com seu lindo desenho me dar uma superlição de moral. Fiquei confusa.
Primeiro me orgulhei de meu Pedrucho, seu desenho e sua ideia. Depois me incomodei um pouco. Fui até seu quarto pra lhe agradecer a lembrança do quanto a minha vida é boa, mas também precisei lhe falar da relatividade das coisas. De como precisamos reclamar um pouco, que todo terreno tem seu esgoto. Que somos felizes por ter braços e pernas, mas que, quem tem pé, às vezes, tem unha encravada. Dormimos abraçados.
Gabriel Rinaldi


DENISE FRAGA é atriz, casada com o diretor Luiz Villaça e mãe de Nino, 13 anos, e Pedro, 11 e-mail:dfraga.colunista@edglobo.com.br

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