Como reagir a um email cheio de poesia?

13:34, 6 de julho de 2011
mclaire
Manual de etiqueta virtual

Meninas, amor bonito mesmo era na época do Camões! Esperar a caravela partir, a longa travessia, um mapa pela metade numa mão, a pena em outra, uma flecha espetada no bumbum e aquela vontade de gritar as maiores dores, os maiores sentimentos a uma moça de além mar!
E então, muito tempo depois, ela receber em Lisboa a carta amada, molhada de suor, sal, mar e travessura!
Hoje você só precisa aperta o send…
Garotas, garotas… O amor nos tempos de internet é veloz demais. É raso demais. Do oceano fizemos uma piscininha! Perdemos aquele tempo para cozinhar o coração antes de disparar no papel as grandes cicatrizes d’alma
Sim, a internet, essa inimiga do romance.
Tenho recebido cartas com dúvidas de leitoras. Elas querem entender os negócios do romance em época de banda larga. E foi diante dos perigos do cortejar via e-mail, do paquerar pelo Flickr, do atualizar o seu status civil pelo Facebook, de dar um fora no Twitter, que eu decidi estrear o Pequeno Manual da Etiqueta Virtual. Mande suas dúvidas! Sempre que calhar, volto ao tema pra te ajudar a atravessar com doçura e boia as ondinhas revoltas da web.
J., o que pensar quando recebo um e-mail dele cheio de poesia?
Pensar o pior! Meninas, fico matutando se um dia alguém poderá coletar a quantidade infinda de versinhos de Vinicius, de poeminhas de Drummond, de frasesinhas de Neruda, de correntinhas de Veríssimo, tudo isso utilizado na safada modalidade do cortejo por e-mail.
Vocês conhecem o tipo. Ele começa se insinuando, puxando uma conversa qualquer. Mas é você dar reply e logo sua caixa de entrada acusará uma tréplica. Uma tréplica polvilhada de rimas e palavras com profundidade marítima. Moças, dica: se você receber um correio eletrônico assim, cheio de poeta morto, cuidado, cautela!
Surrupiar de um escritor qualquer o recheio de uma sedução é um perigo sem fim. Porque vá lá, suponhamos que você se sinta tocada pelos carinhos daquela prosa emprestada de um Nelson Rodrigues. É coisa linda mesmo. Mas pensa no que virá depois, na hora em que você e o seu trovador fajuto se encontrarem para um jantar, para um cineminha, para um tête-à-tête.
Ele vai abrir a boca. De lá, sairá tudo, menos Vinicius, menos Drummond, menos Neruda. De lá sairá vida real, gíria e normalidade. E na primeira vez que ele disser: “e aí, firmão?”, seu sonho de fantasia vai virar a pipoca murchíssima da realidade. De resto, vale sempre lembrar que homem é malandro e é preguiçoso. Ele sabe como é fácil você cair na lorota poética. Prefira o rapaz que confia na própria rima.

Tem uma dúvida cruel? Escreva para falecomele@edglobo.com.br
http://colunas.marieclaire.globo.com/falecomele/2011/07/06/pequeno-manual-da-etiqueta-virtual/

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