Livro que influenciou Borges e toda a vanguarda argentina chega ao Brasil

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
Capa de
Capa de "Museu do Romance da Eterna", de Macedonio Fernández
Macedonio Fernandez é certamente um dos casos mais curiosos da literatura mundial. Original ao extremo, sua obra é impossível de ser classificada e no entanto é concretamente um ponto de partida para tudo o que se escreveu de mais ousado e criativo na Argentina, a começar por Borges, que era seu maior admirador e amigo constante.
Este "Museu do Romance da Eterna" em particular, publicado pela primeira vez quinze anos após a morte de Macedonio (1874-1952), é um caso muito especial de livro igual a nenhum outro, completamente diferente de tudo o que se lera antes ou mesmo depois; tão único, na verdade, que foi escrito com a intenção de nunca realmente ser lido -- “sua” grandes aspiração era permanecer inédito, à maneira dos textos de Kafka, que nunca foram queimados, a despeito de sua vontade.
O  formato mesmo já o denuncia: o “romance” propriamente dito só começa no meio do livro, depois de uma série de prólogos que parecem querer protelar a trama ao limite da inexistência. E, no entanto, Macedonio não deixa claro se esses textos digressivos, que preparam o leitor na mesma medida em que lançam dúvidas que podem ou não ser respondidas, não seriam já parte essencial da “trama” (as aspas são necessárias, pois não há nada de convencional no livro, nada que possa ser encaixado em conceitos a que estamos acostumados).
Na verdade, os prólogos são talvez a parte mais divertida desse Museu tão visitado por escritores como Cortázar ou Ricardo Piglia, ou mesmo mais novos, como Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas e Alan Pauls, diretamente influenciados de uma maneira ou outra por Macedonio. É onde o autor, que escrevia obsessivamente em pequenos papeis, os quais ia acumulando em gavetas e potes, apresenta sua inusitada filosofia e teoria estética ao leitor; mais que isso, como nota Piglia num de seus muitos textos sobre Macedonio (e até mesmo um romance, “Cidade Ausente”, no qual Fernandéz figura como personagem), busca definir o que é o leitor, fazendo “uma espécie de zoologia ou botânica irreal que identifica gêneros e tipos de leitores na selva da literatura”.
Assim, há o “leitor salteado”, o “seguido”, o “incomodado”, o leitor “mínimo”, o “não-conseguido”, o “leitor de desenlaces” e outros. Ao “salteado”, ou seja, aquele que lê pulando trechos e páginas inteiras, adverte, com seu típico racionalismo irreverente, não distante do tom a um só tempo desconcertante e “piscador-de-olho” de um Lewis Carroll: “o livro é tão cheio de valas, que não há alternativa senão lê-lo seguido, para manter a leitura desunida”.
Essa lógica na contramão do realismo, que subverte a todo instante a expectativa mesma que se tem diante de um livro, está em cada milímetro das vigas e colunas que sustentam o Museu de Macedonio e seus labirintos. É mais radical do que Borges faria depois. Não há concessões. Mas, curiosamente, ao mesmo tempo o diálogo com o leitor é permanente – diálogo mesmo, como se conversasse (Borges,mais uma vez, dizia que a melhor obra de Macedonio estava em suas conversas).
  • Reprodução
    O escritor argentino Macedonio Fernández
E não só com o leitor, mas também com os personagens – e consigo mesmo. Todos: autor, leitor e personagens, fazem parte do “romance”, colocado no livro como um lugar, uma “estância” na qual vivem juntos, conversam, tomam chá e disputam jogos amorosos e meta-linguísticos. Quando vão à cidade – Buenos Aires – saem do romance e entram na realidade, aquela que o autor repudia com veemência: “a verdade de vida, a cópia de vida, é o que abomino”.
Eterna, Presidente, Deumamor, Doce-Pessoa, Simples, Pai, Quiçagênio são os nomes dos estranhos personagens, que nem sempre sabem o que querem, o que fazem, nem mesmo se existem, ou se desejam continuar no “romance”. Há também o personagem ausente, ou “o homem que fingia viver”, o “Viajante”, que só aparece nos finais dos capítulos para dizer que está de saída, e personagens desprezados, que gostariam de constar do livro, mas não são aceitos.
No fim, o grande personagem é o próprio Macedônio, louco lúcido, marginal central, anônimo idolatrado. Que talvez em nenhum lugar tenha sido mais atenciosamente editado que no Brasil. Além da excelente tradução de Gênese Andrade (nome que poderia constar no “romance”), a edição, a cargo da equipe do também escritor Emílio Fraia, é de um apuro e originalidade exemplares. Não há – com uma única exceção, devidamente explicada pelo autor – nenhuma página em branco (as quais Macedonio repudia como falsas, num de seus 60 prólogos). O texto preenche as próprias capas, e o corte das páginas é irregular, lembrando os pedaços de papel soltos em que o autor escrevia. E há todo um cuidado com típos, créditos, cores e numerações de páginas, além do ótimo prefácio de Damián Tabaróvsky. Um belíssimo livro, inacabado, feito de “retalhos, desvios, digressões”... Mas que resulta tão bem acabado. 

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